O garoto passa pela “peneirada” (seleção) com outras centenas de meninos, é reprovado e vai tentar a sorte em outro clube. No arquir-rival é aprovado nos testes, começa pelas categorias de base, chega ao profissional e, como um chute à queima-roupa, se torna o carrasco do time que o reprovou anos antes. A história é real e é o ponta-pé inicial no jogo da vida de muitos craques, como Garrincha, que foi recusado por Fluminense, Vasco e Flamengo, antes de se tornar o “Anjo das Pernas Tortas” no Botafogo.
No Pará, um dos replays mais lamentados até hoje, no caso pelo Clube do Remo, envolveu o franzino Paulo Benedito Santos Braga. Em meados dos anos 50, o menino esteve no clube de Antônio Baena, fez testes durante um mês, mas foi jogado para escanteio. Colocou o par de chuteiras debaixo do braço, fez a clássica travessia da Almirante Barroso e bateu no portão do estádio Leônidas Castro, a Curuzu. Acolhido pelo Paysandu, se destacou no time sub-20 e, tempos depois, chamou a atenção do técnico da equipe profissional, Arnaldo Moraes. Paulo Braga vestiu a camisa 10 bicolor como sua segunda pele e, entre 1956 e 1973, imortalizou o nome Quarentinha como sinônimo de habilidade, oportunismo e muitos títulos, formando o time ao lado de Abel, Beto, Vila, Milton Dias, Bené e Castilho, goleiro da seleção brasileira. Nas palavras dos ex-companheiros, um consenso: Quarentinha honrou a camisa do Paysandu, onde jogou por toda a carreira, mas, acima de tudo, a camisa do Estado do Pará, se transformando em orgulho de todas as torcidas.
| Quarentinha é o primeiro agachado da esquerda para a direita. |
“Ele tinha uma visão de jogo privilegiada, se cuidava muito fisicamente e tinha uma técnica apurada. Para mim, ele foi – e ainda é - o maior meiaesquerda não apenas do Paysandu, mas de toda a história do futebol
paraense”, avalia Ércio Ramos dos Santos, o ex-ponta-esquerda que atuou ao lado de Quarentinha entre 1959 e 1969, conquistando o título local oito vezes. “E além de tudo, ainda marcava muitos gols, mesmo não sendo um atacante nato, como eu era. Ele marcava até 10 gols em um campeonato, média de um artilheiro do Parazão nos dias de hoje”, acrescenta o ex-jogador.
Quarenta conciliou o futebol com o funcionalismo público: fora dos gramados, trabalhou como perito datiloscópico na Polícia Civil. Fez muitos amigos dentro e fora de campo e um deles, o jornalista Jones Tavares,que participou, literalmente, dos primeiros chutes do jogador. “Éramos quase garotos, no começo da década de 50, quando jogamos juntos no time do Olaria, hoje extinto em Belém, ao lado do Mano, que
depois iria para o Remo, e o Carlos Alberto Urubu, que jogou no Paysandu. O time era amador mas jogávamos para valer”, lembra Jones. “Já nessa época, o Quarenta demonstrava tenacidade, categoria e muita humildade. Um craque verdadeiro”, complementa.
Além do histórico 3 x 0 sobre o Peñarol, então campeão do mundo em 1965, Quarenta não esquece o primeiro título que ganhou como profissional, em 1956. “Fazia nove anos que o Paysandu não era campeão. Eu entrei nos dois jogos finais contra o Remo e marquei em ambas as partidas”, relembra o ex-atleta, que traz o Pará no coração há 75 anos.
Fonte: Diário do Pará
Fonte: Diário do Pará